Lições de quem viu a Copa de 50

13 de junho de 2014, escrito por Redação i3i, na categoria O que nos inspira

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A maior parte dos brasileiros nem sequer tinha nascido, mas há quem recorde perfeitamente de cada lance e, ainda hoje, quase 64 anos depois da trágica derrota do Brasil na Copa de 50, sofra só de pensar nela. É o caso de Francisco Camões de Menezes, 80 anos, conselheiro benemérito do Botafogo de Futebol e Regatas. Aos 16 anos, o carioca foi um dos mais de 200 mil brasileiros a lotarem o estádio Maracanã, no Rio de Janeiro, para assistir à final da Copa de 1950 entre Brasil e Uruguai. Vencido pelos visitantes por dois a um, o episódio é conhecido até hoje como Maracanazo.


Apesar de torcer em casa pelo Brasil, Francisco Menezes aposta que Uruguai surpreenderá novamente. Foto: Arquivo pessoal

Francisco, que era estudante do Ensino Médio naquele 16 de julho de 1950, relata que foi ao estádio na companhia de seis amigos. Kiko, Marcos Lúcio, Laércio (já falecido), Milton Alves, Ventura e Tonico, além do próprio Francisco, aproveitaram a oferta de ingressos pela metade do preço feita pela Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários (Ames) e se deslocaram para o palco do espetáculo confiantes de que veriam o Brasil faturar a primeira Copa do Mundo. Aliás, segundo garante Francisco, a convicção de que o Brasil “passaria por cima” do Uruguai era de todo o resto do mundo, tamanha a diferença técnica entre as duas seleções. “E isso quem dizia na época não era eu, mas os números de cada campanha até a final. As estatísticas eram amplamente favoráveis a nós e permitiam esse clima de já ganhou generalizado. Enquanto a gente vinha de grandes goleadas, de 7 a 1 na Suécia e de 6 a 1 na Espanha, o Uruguai não metia medo em ninguém. No fim, aconteceu aquela tragédia que todo mundo já conhece. Foi terrível”, afirmou, ao recordar o revés esportivo mais triste da história da pátria verde e amarela. “Foi um dia funesto, os melhores jogadores do Brasil não jogaram nada. O centroavante Ademir, então, nem se fala. Uma jornada lamentável. No final, aquela frustração toda e muita gente chorando, especialmente mulheres.”

O hoje conceituado conselheiro do Botafogo acredita que o resultado teria sido outro se toda aquela confiança não tivesse ganhado um caráter oficial. Contagiados pelo clima de festa antecipada da população, os principais veículos de imprensa do país daquela década começaram a tratar o duelo como “jogo jogado”. “Pra mim, quem perdeu aquele jogo foi a imprensa, porque os jornais todos começaram a dizer que o Uruguai não era adversário e que o jogo já estava ganho. E não havia mesmo como esperar outro resultado. Mas, uma coisa que aprendi, é que antes de acabar o jogo você não pode dizer nada simplesmente porque não pode garantir nada até o apito do juiz. O futebol é um jogo cheio de surpresas que só acaba quando termina e a prova está aí”, declarou.

Definidas por Francisco como “fator extracampo” determinante, as notícias promoveram uma alteração de estado de ânimo nas duas seleções. Enquanto os brasileiros foram a campo tomados de soberba e certos de que ganhariam o jogo como e na hora que quisessem, os uruguaios entraram mordidos e distribuindo pancada para todos os lados. “O chefe da delegação uruguaia soube usar de psicologia para incendiar o vestiário. Reuniu os jogadores na concentração e disse a eles que arrumassem as coisas, pois voltariam para casa naquele momento. O Obdúlio Varela, que era capitão deles, sem entender nada, perguntou como assim, e o jogo de amanhã? Ele então pegou os jornais e, mostrando para os jogadores, disse: esse jogo nós já perdemos, olha o que estão dizendo da gente?”, relembrou. “E aquilo feriu muito eles, fez um efeito extraordinário. O Obdúlio, e eu até me arrepio de recordar, pois nunca vi um líder igual a ele, disse então que nem que o verde do gramado virasse rojo, nem que para tanto tivessem de verter sangue, eles não perderiam aquele jogo. E não só não perderam como ganharam, lamentavelmente.”

Espremido atrás da goleira em que Ghiggia anotou o gol da virada Celeste no Maracanã, o botafoguense ilustre isentou o já falecido goleiro Barbosa de culpa naquele lance. Segundo ele, qualquer outro que estivesse no lugar do arqueiro brasileiro acabaria traído pela inteligência do ponta uruguaio. “O Barbosa acabou crucificado por aceitar aquela bola, que passou entre ele e a trave. Mas, pessoalmente, eu acredito que quem tivesse ali naquele momento, qualquer um, teria calculado o mesmo que ele e acabaria traído igual”, disse, antes de concluir. “Quando alguém ataca pela ponta e percebe a aproximação em massa de companheiros pelo meio, o normal, a ação mais comum do que ataca é cruzar, centralizar a bola. A tendência é essa. Lamentavelmente, ele fez o improvável e surpreendeu a todos, inclusive o Barbosa.” 
Para reforçar sua defesa, Francisco ainda lembrou que o marcador de Ghiggia, o lateral-esquerdo Bigode, foi superado pelo atacante nos lances que originaram os dois gols da vitória uruguaia e nem por isso é responsabilizado pela derrota. “O Ghiggia era marcado pelo Bigode e o Bigode tomou uma bola no meio das pernas no lance do gol. E até hoje ninguém fala nisso, só citam a falha do Barbosa."

Apesar da oportunidade de repetir o feito de 1950, quando assistiu de dentro do Maracanã a todos os jogos da Copa realizados no Rio de Janeiro, seu Francisco garante: não irá a nenhum jogo em 2014. “Tenho muitos problemas de intestino e, por isso, não vou a nenhum jogo. Esta Copa acompanharei pela televisão, sentado no sofá da sala da minha casa mesmo", explicou o torcedor, que acumula formação em três cursos superiores: Economia, História e Ciências Políticas.

Talvez por conta do trauma daquela oportunidade, quando testemunhou Schiaffino e Ghiggia calarem 200 mil pessoas no Maracanã,  o carioca hoje aposte no Uruguai para vencer a Copa de 2014, novamente no Brasil. “O meu palpite é que o Uruguai vai ganhar. Vai repetir 1950 e levar mais essa para casa”, disse, para logo em seguida acrescentar: “Não acho a melhor seleção, mas certamente é uma seleção capaz de superar as melhores seleções. Pessoalmente, receio que irão surpreender de novo.” 


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