A caçada ao grande tesouro – na jornada do auto-descobrimento.

26 de março de 2014, escrito por Mariela Silveira

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O que há de errado conosco é que estamos todos vivendo uma grande ilusão. Viemos ao mundo abertos para sentir e experimentar todo o potencial da vida. Para viver com toda a plenitude da felicidade. Ao longo dos anos, vamos construindo nossa estrutura egóica, que nos ensina muito, mas que naturalmente é separatista. Sobreposto a isto, usando a teoria da filósofa brasileira Magalhães, somos imersos em uma sociedade que vive o paradigma da escassez, da não suficiência para todos. Com a crença que a vida é escassa, supostamente, haveria a necessidade das pessoas garantirem o “seu” ou “lutarem” pelo seu, uma vez que os recursos poderão falar. Então, neste raciocínio, quanto mais eu tiver, melhor, mais seguro e protegido, mesmo que o outro tenha menos.

É dessa forma que passamos a viver, olhando para os desejos do ego e pouco para os de toda a humanidade.

No momento atual, este paradigma fica potencializado. Aqueles que têm os recursos materiais ficam embebecidos na expectativa de conseguir a satisfação e a tal felicidade. Após tantas informações, promessas e atrações do mercado, as compras de bens e aquisições de títulos e status são incansáveis, constantes e, nunca satisfatórias. Muitas vezes, na corrida por trabalhar mais e “garantir” mais, há uma autonegligência, ao mesmo tempo em que há descaso ou descuido com as pessoas que estão à sua volta. Atendo todos os dias pessoas assim. A verdadeira riqueza da vida vai sendo adiada, muitas vezes, para nunca ser tocada. Frequentemente, isto é acompanhado da agressividade, seja simbólica ou real.

Aqueles que não conseguem os recursos, materiais ou sociais, e vivem dentro da crença da escassez, optarão pela violência para satisfazer as necessidades do ego. A agressividade é usada para se conseguir aquilo que não é seu. É claro que aqui, tanto para o grupo com dinheiro quanto para o grupo sem dinheiro, o prazer advindo de recompensa rápida tem área fértil. Na tentativa de suprir o famoso “vazio” ou de achar significado para viver, a compulsão pela comida, bebida, drogas, trabalho, remédios, jogo, compras tem lugar reservado.

Não poderia ser diferente. Quando não há espaço para o amor, sobra espaço para o vazio ou, sobra espaço para a dor.

Ao mesmo tempo em que no momento atual o paradigma da escassez fica potencializado, fica evidente seu fracasso. Os seres humanos vêm fazendo a tentativa de buscar a satisfação absolutamente do lado de fora. Sempre que isto ocorrer, a falha deste sistema virá às claras, e a frustração ocorrerá. Talvez tenha sido necessário chegar a um extremo. Talvez muitos ainda andarão em direção dolorosa buscando o significado da vida. Nunca tivemos uma população mundial tão infeliz e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tanta procura pela felicidade.

O que está ficando cada vez mais nítido, é que, de fato, só haverá sensação de plenitude uma vez que o olhar for para dentro. Falar da sensação subjetiva da vida, ou mesmo de amor, por longa data, foi área de atuação das religiões ou da filosofia. A medicina, por muito tempo, se dedicou a causas palpáveis e mensuráveis onde o método científico ficou mais confortavelmente aplicado do que no campo das emoções. A produção de trabalhos relacionados ao amor era pequena e tímida se comparada à sua amplitude e à inter-relação com demais áreas. Na última década, houve uma clara necessidade de todos tratarem esse assunto tão essencial de maneira abrangente e, assim como outras áreas da sociedade, a medicina está cumprindo com sua obrigação de abraçar a causa. Hoje em dia, as pesquisas científicas têm sido muito contundentes com relação a estes achados da percepção subjetiva. Os holofotes estão voltados para a visão de dentro para fora. Um exemplo disso, a pesquisadora Kathryn Shut, que se dedicou à compreensão dos nossos parentes macacos, observou que aqueles que recebem mais carinho têm maiores benefícios em termos de desenvolvimento de córtex cerebral (área mais recente e evoluída do cérebro). Isto já era possível de se imaginar. Mas o mais impressionante é aqueles que faziam cafuné para os demais, que doavam o cuidado com os outros, tinham maior desenvolvimento e maior benefício cerebral, inclusive maior do que aqueles que apenas recebiam o cafuné. Outro trabalho mostra que quanto mais sociável o primata, maior o córtex cerebral. Nos seres humanos, estudos de Richard Davidson com a ressonância magnética funcional mostram que as pessoas que se consideram mais satisfeitas com a vida e felizes são as que têm as áreas cerebrais associadas à compaixão mais desenvolvidas. Sim, o tesouro da vida está relacionado com a capacidade da pessoa doar e amar. Afinal, além de evidentemente trazer um convício social mais favorável, amar alguém traz muitos benefícios orgânicos e individuais. Pessoas que exercitam a compaixão através do mindfullness tendem a ter melhor imunidade, pontua Sian Bellock, da Universidade de Chicago. Este sentimento é a grande chave para a mudança de paradigma. Ela faz bem para a saúde pessoal e coletiva. Ela mostra que o que acontece com os outros interfere no indivíduo, e vice-versa.

Sempre é tempo de se fazer a mudança, mas se ela puder ser ensinada para nossas crianças desde a vida intrauterina, melhor ainda. Quando se cresce em um ambiente em que se compreende que as coisas fundamentais da vida são generosamente abundantes, como a luz solar, a chuva que cria todas as plantas e os alimentos, o ar que respiramos, a compaixão e a paz, há uma grande libertação. E quando nos damos conta disso, podemos viver com mais confiança e com mais harmonia, e usar o trabalho de forma verdadeiramente gratificante e positiva.

Não há nada de errado com o material ou com as conquistas. Muito pelo contrário. É bom que possamos usufruir dos recursos de maneira saudável e respeitosa, mas não esquecendo que o grande tesouro está quando colocamos o foco no interno, cuidando das emoções construtivas, para aproveitar a vida com plenitude.

Na pratica, é possível funcionar diferente. Observamos isto quando nossos clientes no Kurotel incluem o olhar do tesouro interno no fluxo de suas vidas. Sentimos isso também quando as crianças nas escolas, através do nosso trabalho social, fazem a meditação da compaixão e se sentem melhores.

Isto é possível. Só requer abertura e coragem para se pensar de uma maneira diferente, mas muito mais útil e melhor.



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Mariela Silveira



Dra. Mariela de Oliveira Silveira Pons é médica especialista em Nutrologia pela Universidade de São Paulo, pós-graduada em Acupuntura Médica pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul e em Terapia Cognitivo Comportamental pela Universidade de São Paulo. Co-fundadora da Associação Mente Viva, para a promoção da paz nas escolas, hoje presente em cinco estados brasileiros. Como palestrante internacional, representou o Kurotel em eventos em Kuala Lumpur, Bali, Buenos Aires, Montevidéu, Punta del Este, Londres, Nova Iorque, Nova Delhi, Berlim. Filha do casal fundador e médica diretora do Kurotel, Centro Médico de Longevidade e Spa laureado consecutivamente como um dos seis melhores do mundo.

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