Dia do Caminhoneiro

30 de junho de 2014, escrito por Eduardo Giez Estima

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Eu nasci gostando de estrada. Tenho contado, aqui, algumas histórias minhas desde pequeno rodando o Brasil, acompanhando minha família. Mas um dia eu cresci. E tirei minha carta, minha CNH. Lembro como se fosse hoje minha primeira estrada. Foi à noite. Íamos em dois carros para Rio Grande. Meu pai num Opala Comodoro, com a esposa, e numa Alfa TI4, meu tio, minha tia e eu. E meu tio disse: "Vai, guri!" E eu fui.


"Lembro como se fosse hoje minha primeira estrada"

Eu aprendera a dirigir aos 11 anos na beira da praia, tivera experiências na cidade e agora pegava a estrada, essa em que tanto andei no banco da direita.

Minha primeira impressão: como era estreita a tal faixa de rolagem. Era olhar para o lado e o carro andar para o mesmo lado. E, se me aventurasse a andar mais rápido, mais estreita ficava a estrada. Medo!

Não queria fazer feio para dois ídolos da direção, meu tio e meu pai. Meu pai deixou eu ir na frente. Ele, gentilmente, me acompanhava atrás.

Com apenas dois olhos, como eu iria cuidar perto, cuidar longe e ter as visões laterais? Não sabia. Viria a aprender, mas naquela noite fria de setembro de 1977, realmente eu não sabia.

Essa fora a primeira. A partir dali, ia desenvolvendo o que eu aprendera, olhando, ouvindo. E aprendera algo que era comum naqueles que eram da noite na estrada: os sinais entre os motoristas. Trocados quase que exclusivamente entre caminhoneiros. Se você o fizesse, era respeitado. Respeitava e ganhava respeito.

Viajei muitas vezes de Porto Alegre a São Paulo de carro. À noite, na Régis, ou mesmo na 116, sob neblina forte e sem faróis de xenon, seguir um ônibus ou um caminhão - de preferência Scania que tocava mais rápido - era viajar tranquilo. Aproximava-me, apagava os faróis, acendia somente a lanterna e ele entendia, ali estava um companheiro de estrada. Dava seta esquerda, seguido de uma direita, pronto! O caminhoneiro apagava os faróis e fazia o mesmo. Estávamos nos cumprimentando. Até o momento em que a neblina cessasse, eu ligava a seta para a esquerda, de faróis desligados, ele faria o mesmo para que eu pudesse ver se vinha alguma outra luz ou não. Caso não, ia ultrapassar um caminhão que estava junto comigo no momento. Se me apertasse, raríssimas vezes isso acontecia, ele me ajudaria, pois se identificara comigo.

Esse respeito se dava também com aqueles que vinham em sentido contrário, desligando os faróis e piscando a seta da esquerda. Ele faria o mesmo se tudo estivesse bem pela frente. E seguiríamos piscando luzes, pois nos víamos nos espelhos retrovisores, após nos cruzarmos na estrada em que todos estavam ali levando o pão para casa.

Hoje é um desses dias do Caminhoneiro. Criado no estado de São Paulo, por decreto, embora o Dia do Motorista, e aí todos os caminhoneiros comemoram, é o dia de São Cristóvão, em 25 de julho.

Mas não poderia deixar passar essa data. E me vem uma pergunta: onde andarão esses caminhoneiros todos?

Com o excesso de demanda, onde frotistas ficam com seu pesado parado por falta de mão de obra qualificada, ou, pior, apenas habilitada, pensar em entender setas para a direita = pode ultrapassar; para a esquerda, vem carro em sentido contrário; ou, ainda, sinal de luz e quatro dedos para baixo = animal na pista ou acidente adiante, vemos jovens de vinte e poucos anos dirigindo treminhões de mais de 70 toneladas, com CNH E, carga perigosa, incapazes de sinalizar ao outro.
Quer prova? Fiz Porto Alegre- Curitiba dia desses e instalei um PX, rádio usado nas estradas. Não queiram ouvir o que ouvi. Desde "baixa o eixo que eles estão na frente", num sinal de que, para economizar pneus, um dos eixos da carreta estava no ar, aumentando a carga por eixo e, consequentemente, o estrago no asfalto, e deveria ser baixado porque havia fiscalização à frente.
Outra? Entre dois caminhões, apaguei o farol, liguei a seta para esquerda e, o da frente, liga para a direita. Eu ia sair e ouvi: "Olha a M... Que vai dar..." Resolvi voltar. Vinha um caminhão de frente. A voz era de um jovem com sotaque do interior, se divertindo com o acidente que ele estava contribuindo para acontecer.

Eu sigo cumprimentando, não acredito mais em algumas gentilezas, mas sigo respeitando os grandões da estrada e, principalmente, seus motoristas, que levam tudo o que consumimos, que entopem nossas estradas, que viram noites dirigindo por ignorância ou por "precisão", como já ouvi.

Eu espero que, um dia, algum governo privilegie os meios de transportes de grãos e bens pelas hidrovias, por cabotagem, ou ferrovias. Isso não criaria desemprego no setor de caminhões, pois todos se adaptam às mudanças de mercado e, principalmente, os caminhoneiros. Os bons mesmos se adaptariam aos novos tempos.

Assim, dou parabéns aos meus irmãos da estrada. Sigam com Deus! Há um sorriso lhe esperando na volta ao lar.



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Eduardo Giez Estima



Empresário apaixonado por motores como quase todos brasileiros.

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