NeuroÉtica

23 de maio de 2014, escrito por Fernando Conrado

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O conhecimento humano sempre se dividiu em dois grandes universos. A Doxa e a Opinio. A Naturwissenschaft e a Geistewissenschaft. As Ciências Naturais e as Ciências do Espírito. As Exatas e as Humanas.

Entre esses dois universos sempre existiu um abismo epistemológico. Muitas vezes, os Julgamentos Quantitativos (das Ciências Exatas) seguem uma lógica totalmente inversa à dos Julgamentos Qualitativos (das Ciências Humanas). Assim como não podemos dizer que uma obra de arte possui 57% de beleza ou 6,02x10²³ moléculas de bom gosto, também não podemos dizer que um cálculo aritmético é bom ou ruim, ou um teorema físico é belo ou feio. Simplesmente o mesmo modelo de análise não se encaixa nas duas vertentes científicas. São praticamente antagônicos entre si.

O ser humano desde seus primórdios decide tudo dualmente. Binariamente. Ou algo é justo ou é injusto. Ou é feio ou é belo. Ou é bom ou é mau. Somos intrinsicamente binários. Por mais que o caminho das Ciências Exatas tenha se afastado do caminho das Ciências Humanas, sua trajetória somente foi capaz de dar os assombrosos passos científicos que resultaram em toda a tecnologia que está a nossa disposição hoje em dia, fundada num padrão binário. Roboticistas e cientistas da computação até hoje se servem de um sistema binário para suas peripécias científicas. O homem foi à Lua devido a um sistema binário. Robôs realizam cirurgias devido a um sistema binário. A palavra “Bit”, que significa o átomo de informação tecnológica, vem do inglês “Binary digiT”.

Seguindo a mesma lógica da Teoria do Big Bang, no início de tudo, esses dois caminhos científicos tão díspares, tão afastados um do outro, mas tão enraizados num mesmo processo binário, parecem que mais uma vez voltam a se unir.

Na Universidade de Washington, pesquisadores estão dando os primeiros passos num campo da neurociência chamado “Neuroengenharia” que tem por objetivo envolver coisas como regular o humor das pessoas através de implantes cerebrais. Nesse vídeo que compartilho com vocês, eles explicam como esse gigantesco achievement do campo das Exatas, das Ciências da Natureza, das Naturwissenschaften, da Doxa, passa a respingar, passa a necessitar, passa a convidar para o diálogo as Humanas, as Ciências do Espírito, as Geistewissenschaften, a Opinio.

As questões levantadas por esses Neuroengenheiros estão se tornando cada vez mais importantes em todos os mais variados campos científicos que de alguma forma tocam não só o cérebro, o órgão em si, mas a própria mente humana, nossa parte emocional, nossa “alma”. Adentrar nesse campo levou os maiores expoentes das Ciências Exatas a tentarem novamente responder aos mesmos questionamentos que os pensadores das Ciências Humanas contemplam há milhares de anos: Quem somos nós? Existe livre-arbítrio? Se alguém está controlando nossas mentes com químicos, equipamentos médicos ou implantes cerebrais, no que isso se diferencia do controle ideológico, de incentivos econômicos, ou da dominação carismática?

A eterna guerra entre as Ciências Exatas e Ciências Humanas, o instransponível abismo epistemológico, parece, até que enfim, fadada, destinada, a acabar numa única síntese, numa mesma e única discussão. – ao menos em casos como estes.




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Fernando Conrado



Fotógrafo, advogado, cientista social, com ênfase em política e antropologia, pós-graduado na Espanha em relações internacionais.

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