O Fusca BD-4746

29 de maio de 2014, escrito por Eduardo Giez Estima

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Para quem já leu outras colunas, sabe que pelos idos de 1967, meu pai largou o mercado de seguros no Rio Grande do Sul e foi desbravar Minas Gerais. Como escrevo sobre carros, gostaria de passar rapidamente pelos italianos Fiat da época.

Havia um jornal que pouco vendia em Minas, era O Diário. Existia também um de sucesso, mas esse era O Diário de Minas. O primeiro convidou meu pai para ajudar a vender mais jornais. O jornal era ruinzinho. Fizeram uma pesquisa para saber por que vendia tanto no final de semana. Descobriram que o pessoal de açougues, minimercados e similares compravam O Diário nas bancas para usar como papel de embrulho durante a semana. Triste encarar as verdades do Sr. Mercado.

Mas meu pai e uma equipe criaram uma campanha de assinaturas que fora um sucesso: equipe de vendas de porta em porta bem remunerada e, aos assinantes, prêmios, sendo que os tops eram uma Fiat 850, uma 850 spider, uma 124 branca e uma 124 vermelha spider, para o primeiro prêmio. Os carros eram o máximo. Pra quem é de BH, eram vendidos. Uma revenda Simca chamada Sabel. Não confunda com a Carbel, essa era VW.


Crédito: www.diecastcountry.com

Pois o Fiat italiano era diferente de tudo o que víamos. Lembra da Kombi? Pois eu, com sete anos ou oito, sabia o que era um câmbio ajustado. De engates precisos, ao brincar nas Fiat. Aquilo era caixa! Viajamos pelo interior de Minas em carreatas, nos divertindo para expor os carros nas praças e vender assinaturas. Eu junto. Era não ter aula, lá ia eu. A região das Alterosas era cheia de curvas, e eu sentado no banco do carona, capota baixa, na 124, e os quatro carros colados na estrada. Lembro bem. Que época divertida!

Mas meu pai não teve sucesso lá. Lançou, inclusive, o primeiro consórcio da capital mineira, o Plano Católico do Carro Próprio, com a benção da cúria de BH e de Juiz de Fora (lembram da minha viagem no Vera Cruz? Foi para isso que fomos lá, conversar com o Bispo). A Kombi estava toda pintada com propaganda do "PCCP". Tivemos também uma Kombi camper, era 61 cinza e branca com todos os móveis internos. Não sei se era de fabricação alemã. O Ivan Fortes, colecionador de Kombis, que tenta comprar a Clipper 67 de meu tio, me fez lembrar dela ao postar uma foto de uma igual no Facebook.

Nessa época, grana curta, eu vim com minha mãe visitar meus avós em Porto Alegre. Eram três dias de viagem. Primeiro, pegávamos um Cometa lá na rodoviária. Ele passava na frente da nossa casa na Av. Amazonas indo para São Paulo. Na capital paulista, ficávamos algumas horas, eu, bêbado de sono, até pegar o Expresso Minuano. Nossa. Foi uma vez só essa viagem? Que coisa louca. O ônibus tinha motor Scania ou FNM, não sei lhes dizer, me perdoem, mas lembro das rodas que eram só aros presos ao cubo, pesadas. Subíamos as serras em estrada simples, andando a 10 por hora. Todas as janelas abertas. CALOORRRR! E um moleque de duas fileiras à frente resolveu vomitar o pastel de urubu que havia comido. A mãe dele o pendurou para fora da janela, mas a aerodinâmica naqueles 30/40km/h trouxe o produto interno bruto do guri pra dentro da minha janela. Bergh&#¥. Fui no banheiro do Minuano. Voltei. Eu estava melhor que o banheiro!

Bueno, se vocês acham que isso era a viagem, tínhamos que voltar a BH. E sempre tinha um inteligente que comprava garrafões de vinho de Caxias do Sul. GARRAFÕES + CURVAS DE SERRA + CALOR = Quebra... e um rio de vinho que virava vinagre e enjoava a todos. Afinal, quando chegava a noite, tínhamos que fechar os vidros. Era frio! Gente, que indiada. Acho que essas coisas nos tiram da zona de conforto e nos dizem: não quero isso para mim.

Hoje, quando vamos fazer uma trilha e enviamos os Jeeps de plataformas para o local e viajamos nos leito com wifii da Planalto parece piada lembrar do passado. Mesmo num ambiente de concessão, algumas empresas, como a Planalto, mantém uma frota ultramoderna e confortável.

Para encerrar BH, fomos de volta para o Rio Grande do Sul em 1970, numa Simca Emisul, segunda série, cinza chumbo. 2-20-00-45 era sua placa. Ops, lembram da galera da Kombi? Com exceção da Nana que viera antes, meu pai, minha mãe, os quatro irmãos e o Tommy, todos juntos, sem cinto, de vidro aberto, cantando, brincando de "A palavra é...", baseado no homônimo programa do falecido J.Silvestre ou do Flávio Cavalcante.

Tínhamos muito ainda a remar. O casamento de meus pais estava no fim. O Nando tinha 5, a Laura, 7; a Luiza, 9; e eu, 11. Pois foi nesse Simca, na praia do Cassino, "a maior praia do mundo", em que eu aprendi a dirigir. Enxergava entre o topo do volante e o painel. Três marchas de muita emoção. Os tempos eram outros. Não tínhamos em quem bater com o carro na praia. Eram poucos veículos. Quem teve uma praia com uma faixa de areia tão larga como o Cassino para aprender a dirigir foi um privilegiado.

Misturando os assuntos um pouco, essa semana perdi meu tio Antônio. O primeiro cirurgião plástico do sul do Brasil. Ele e a tia Vera foram nos visitar uma vez em BH a caminho de um congresso em Recife. A bordo de um Fusca. Que alegria recebê-los. Triste vê-los partir. Tio Antônio enchia a casa. Insistia com a caligrafia. Pintava quadros que sempre admirei. Tenho um óleo sobre tela dele na entrada de nosso apartamento, uma visão de barco do mercado de frutas de Rio Grande, terra da família de meu pai. Da praia do Cassino. Vai com Deus Tio Antônio. Tu fizeste tudo o que tinhas pra fazer. Plantaste, escreveste, criasses uma filha, tivesses sobrinhos que te adoraram. Faz sete dias que te foste. Mas segues em nossos corações. Como as lembranças de teus V8, Galaxie, Landau, Maverick LDO, todos automáticos. E até um Corcel Binno. Legítimo. Eu precisava ilustrar.

Enfim, o Fusca BD-4746... bah, falei de tantas outras coisas que esqueci do Fusca. Mas, como ele aparece em nossa vida em 1972, fica pra outra. Sorry.

Um abração!



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Eduardo Giez Estima



Empresário apaixonado por motores como quase todos brasileiros.

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