Pro Paraguai: 1971/72

18 de junho de 2014, escrito por Eduardo Giez Estima

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Olá! O título da última coluna deveria ser o dessa: BD-4746 era a placa do Fusca 1500/1971 bege que a empresa de meu pai lhe deu para seu uso. Era da empresa, mas customizado à moda da casa: volante Walrod, toca fitas de cartuchos, escape Grand Prix, que nunca mais vi igual: todo cromado e saía para o lado esquerdo, ao contrário de todos os outros do mercado. Ah, e rodas Italmagnésio. Bonito o Fusca. Quem ouvia seu ronco, achava que andava. Nós achávamos que ele andava bem ("sabe nada inocente...").


Fusca 1971 ficou estacionado na cabeceira da Ponte da Amizade enquanto fomos desbravar Puerto Strossner, a atual Ciudad del Este.

Nas férias escolares de julho de 1971 e do verão de 1972, meu pai fora incumbido de cobrar devedores da empresa em que trabalhava no oeste catarinense e paranaense. Era uma empresa de re-refino de óleo. Óleos usados (trocados) nos postos de combustíveis eram armazenados, recolhidos e, após passarem por uma limpeza, tinham adicionados aditivos que os tornavam aptos ao uso novamente. Era uma indústria pequena, em Canoas (RS), onde hoje funciona um bailão. Arrisco em dizer que ela não teria dado certo porque foi pioneira demais em uma época pré-sustentabilidade.

Eu lembro de meu pai ir visitar postos de gasolina e tentar convencer os donos e os empregados a guardarem o óleo velho, que um caminhão passaria e recolheria o estoque, ao invés de (sentem-se...) o jogarem no esgoto, ou num aterro, ou num rio...

Aqui cabe parênteses: eu aposto que a poluição de nossos rios, atualmente, deve-se muito mais à poluição doméstica, visto que as prefeituras, o poder público, o que arrecada para fazer, não trata, não o faz. À indústria, existe todo um aparato fiscalizador e ameaçador xiita, incapaz de bater às portas do governo municipal e cobrar o tratamento de esgoto...

Bom, já fugi do óleo, do Fusca, das férias e... de nossas viagens nele.
No inverno de 71 ou de 72, saímos de Porto Alegre, subimos o que viria a ser a Estrada da Produção e, passando Carazinho, começou o barro vermelho. E assim foi, porque nunca mais vi asfalto naqueles 20 dias de férias. Atravessamos a fronteira de Santa Catarina de balsa. Uma pequena balsa, uma grande fila. E fomos cobrando e conhecendo Xaxim, Xanxerê, Chapecó, Barracão, Barracón, Pato Branco, Concórdia... Francisco Beltrão, São Miguel do Oeste, Cascavel e, finalmente, Foz do Iguaçu. Somente de Cascavel à Foz do Iguaçu havia asfalto. Só ali, e isso eu acho, não tenho certeza.

Usamos correntes nos pneus. Alguns, hoje, nem imaginam o que seja isso. Embora ainda se use na neve na Argentina e no Chile, tínhamos que colocá-las nos pneus traseiros para dar tração no barro. A mesma terra vermelha que hoje nos faz os maiores plantadores de soja do mundo era a que cortava nossos estados em forma de estradas. Entrar ali no inverno era certeza de largada para dúvida de chegada. E chegávamos cansados à noite, nos hotéis de “far West”. O leito das estradas era curvo. Ao avistarmos uma reta, ao contrário daquela linha horizontal que temos hoje, de acostamento a acostamento, tínhamos a visão de um "U" invertido. Como uma boca triste. Tínhamos de andar bem no meio da estrada. Quando vinha alguém em sentido contrário, os dois veículos seguiam em frente um ao outro quase até se tocarem, para saírem à sua direita, irem em direção à barranca lateral e voltar para o centro. Ou tentar voltar. Sim, porque inúmeros caminhões ficavam dias encostados nas barrancas, ou, como chamam no Rio Grande do Sul, nos barrancos, até que outros dois o conseguissem puxar.

Era uma época em que não havia sinal de celular nessas estradas. Nem nelas, nem fora delas. Ou seja, nem pensar em ligar para o 0800 do guincho. Era esperar que outro viajante ajudasse.

As correntes, presas aos aros por cintas de borracha, adaptadas de tiras de câmaras de ar, às vezes se rompiam. Era um estrago no para-lamas do Fusca. Pobre Fusca... E os pneus furavam. E como furavam. Hoje quase não se troca mais pneus por furo em estrada, ou por aquecimento. Naquela época, ainda tínhamos o uso de câmaras de ar, pois não havia os pneus tubeless, ou pneus sem câmaras, muito mais seguros, que são utilizados em todos os carros. Inclusive no Fusca!



Lembro-me que tive febre. Estávamos numa cidade que nem médico tinha. Mas era alguma coisa que passou, pois eu estou aqui. Deixou meu pai de cabelo em pé. Mas ele também se curou do susto. No meio do nada, sem medicação...

Para cobrar os caras, na maioria gaúchos fazendeiros que estavam desbravando o Oeste do Brasil, rolava churrasco, papo e vinha o cara com um pacote de dinheiro e pagava. O óleo era usado nos tratores e demais máquinas agrícolas.

Até que, num belo dia de chuva, chegamos à cidade de Foz do Iguaçu. Primeiro fomos visitar as cataratas. Impressionante. Impactante. No inverno, o volume d'água era muito grande. Caminhamos, conhecemos o Hotel das Cataratas, um luxo à época. E fomos fazer um passeio de barco. Ahhhhh.... Já sei, você pensou que embarcamos lá embaixo, naquelas lanchas extra mega hi power plus...? Errou. Do lado brasileiro da Garganta do Diabo, saía um caboclo com um barco a remo e uns seis ou oito turistas dentro remando contra a correnteza e nos levava até umas pedras, na lateral da Garganta, para apreciarmos a vista. Gente, meu pai conta que quando viu aonde íamos já não havia mais o que fazer, rezou para o cara não ter uma câimbra, que uma abelha não o picasse... Ele não podia largar o remo de jeito algum. E ainda lembro que falou: "Poxa, hoje tá mais forte um tiquinho." Essa lembrança tenho até hoje. Em 2008, fui até as Cataratas, mas de helicóptero, e vi as pedras onde paramos. Que loucura! Colete? Nem pensar. Isso nem existia. E pra que, pois se caíssemos íamos descer a queda mais forte de todo o complexo. Kkkkkkkkkk.... Como pode?

Quando meu amigo Carlos Smith diz que somos frutos de uma seleção, eu acredito.
No dia seguinte, e para terminar essa longa história, fomos fazer compras no paraíso, onde não havia impostos: Puerto Strossner, a atual Ciudad del Este. E, acreditem se quiser, a visão do lado brasileiro era, na cabeceira, um posto de alfândega pequeno, a Ponte da Amizade, imponente e reta, e do outro lado uma rua muito larga, de barro, com uns casebres ou depósitos de madeira de médio porte lá no alto. Poucos. E mato ralo. Era isso. Havia uma loja bacana – Monalisa- do lado direito. Mais umas seis ou oito lojas menores. Todos barracões de madeira. Se você conhece Ciudad del Este, imagine a visão: a largura da avenida era o lado esquerdo e o direito sem todo aquele miolo de lojas que foi construído no meio. Acredito que o projeto, se havia, era de ser uma larga avenida, mas fizeram um canteiro, e construíram shoppings nele.

O Fusca era da empresa, por isso não foi autorizado a sair do país. Os guardas rodoviários nos olharam, viram o Eduardo aqui com seus 11 anos e acabaram nos levando numa Veraneio oficial até o Paraguai. Deixaram-nos lá e voltamos de taxi, pois nosso Fusca ficara na cabeceira da ponte, do lado brasileiro.
Mudou muito. Sobrevoar a área toda, em 2008, até Itaipu, aquele colosso hidrelétrico, mostra que o mundo cresceu por ali. Pessoas jogam, de cima da ponte, malas para o rio na cara de todo mundo. Lá embaixo, como formigas, homens e mulheres recolhem o que cai na água ou nas barrancas do rio e levam até o Brasil.

Um dia os governos deixarão de existir dessa maneira tosca de criar cercados, dizendo, por outro lado, que somo todos irmãos. E seremos mais livres.
Torço por isso.
Um abraço



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Eduardo Giez Estima



Empresário apaixonado por motores como quase todos brasileiros.

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