Somente quando enfrentamos problemas é que temos noção de quem realmente somos

27 de junho de 2014, escrito por Fernando Conrado

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Ver o Eduardo Estima ser meu“fake” escrevendo aqui para o i3i é a mesma coisa que ter o Brad Pitt fazendo o papel principal na versão holywoodiana da MINHA biografia.




A parte mais legal do texto dele, ao menos para mim, é ver como ele narrou o momento em que me conheceu. E digo isso porque ele me conheceu antes de eu o conhecer. É uma sensação estranha ler o que as pessoas pensam sobre a gente e confesso que fiquei lisonjeado – MUITO lisonjeado – em ler a versão dele sobre mim. Sobre minha vida. Em cinco breves parágrafos ele resumiu meus últimos 3 anos. Contou meus louros e meus percalços. É bom às vezes vermos as coisas de fora. Uma visão externa de nós mesmos.

Olhando de fora, minha vida foi exatamente o que ele narrou – e, para dizer a verdade, eu achei até uma vida bem interessante. Um cara, já no meio da vida, em busca de sentido existencial, abandona carreiras antigas para começar do zero uma nova jornada, agarrando com unhas e dentes cada nova oportunidade, galgando meteoricamente cada novo degrau rumo ao sucesso.

Até que o pai morre dramaticamente com câncer.

Até que a mãe infarta, tem um avc, e passa os últimos nove meses num entra e sai de uti's. (para essas guriazinhas que choram nesse filme aí do não-sei-o-que-das-estrelas, eu digo: bem-vindas à minha vida)

Estou no meio de um furacão. Uma vida bipolar.

Na realidade, pensando bem, minha vida não é bipolar. Não sei se existe uma nomenclatura para essa fase que estou vivendo, mas “tudo-ao-mesmo-tempo-agora” soa bastante razoável e compatível.

Para vocês terem uma ideia, nesse exato momento, agora, duas hora da manhã, estou ao lado da cama da minha mãe, no décimo andar de um hospital de Porto Alegre – aonde tenho (não)dormido na maioria dos últimos nove meses – e meu dilema é definir e responder por e-mail até amanhã de manhã em qual castelo da Toscana eu quero ficar hospedado nesse job que o Eduardo se refere, ou se eu prefiro andar de Lamborghini ou Ferrari. Enquanto eu rezo para que minha mãe sobreviva mais uma noite, eu tenho que decidir esse tipo de coisa. Parece mentira, mas eu estou falando a verdade.

Durante toda minha vida eu sempre fui multitask. Minha agenda do colégio era eivada daqueles recadinhos: “O Fernando resolve os exercícios muito rápido, tem ótimas notas, mas não para no lugar e perturba os coleguinhas” - hoje eles chamam isto de transtorno e inventaram um monte de siglas para nomeá-lo. Sempre consegui dar conta do recado. Fazer do limão uma limonada. Até mesmo quando o pai morreu, eu consegui segurar a barra melhor do que eu sequer esperava que fosse possível. Sempre carreguei o mundo nos ombros. Hoje sequer consigo suportar o peso desse meu casaco de inverno.

Um resumo da minha vida hoje, seria uma flor inútil, esmagada, abandonada, sem importância, sob um céu escuro, depois de longos festejos à beira-mar, com a areia coberta de pingos de chuva em uma praia vazia com o mar revolto ao fundo.



É somente nos momentos de terror que sabemos do que somos feitos. Diante do desespero contamos somente com a gente. È nesse momento que temos que ser nós mesmos. Lidar com os problemas. Enfrentar o que vier. Como vier.

Minha vida saiu do prumo. Minha agenda saiu do prumo. Para poder continuar com um alto padrão profissional, infelizmente tive que abrir mão de muitos outros projetos que eu adoraria fazer. Tive que abandonar convite para participar de livros. Tive que abandonar convites para exposições. Tive que abandonar viagens e mais convites para fotografar no exterior. Tive que dizer não. E eu não sou um cara que diz não.

Não durmo direito. Não me alimento direito. Perder o pai e quase perder a mãe em menos de seis meses não estava nos meus planos. Órfão era o único título que eu não queria no meu currículo. Ainda mais agora quando tudo estava indo tão bem.

Não tenho tempo para nada que não seja cuidar da minha mãe e trabalhar. Graças a deus tenho meu irmão e um punhado de bons amigos.

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Sabe o que é o mais incrível disso tudo? É que existe felicidade nesse terror. Existe uma felicidade existencial. Como é que eu vou te explicar? É como se no fundo de um poço existisse um porão, e dentro desse porão existisse mais um porão, e mais um porão, e mais um porão... Nos sabemos fortes, mas aprendemos também à força a aceitar a certeza de que tudo pode sempre piorar. A felicidade está exatamente em acreditar que temos essa energia absoluta, em crer que essa força nos faz indestrutíveis, mas abrir mão de contar com ela. Não nos apegarmos a ela. Confiarmos em nós mesmos. É acreditar que tudo dará certo, mas contando somente com a força do nosso caráter.

Só no terror que descobrimos do que somos feitos.

[ Para vocês verem, até no meio desse furacão todo eu encontrei tempo e “inspiração” para escrever esta coluna. ;) ]

Conheça o trabalho fotográfico de Fernando Conrado

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Entenda mais sobre a coluna: Fake.(ou seria interino?)





O Fernando Conrado não está podendo escrever nesses dias. Ele está com uma demanda fotográfica muito grande. Vocês sabem que ele é advogado, ou melhor, era, abandonou tudo- sua carreira em rápida ascencao, para fotografar? E, prodígio que é, tornou-se um dos mais requisitados fotógrafos do RS. Vou lhes contar um segredo: em setembro ele vai viajar para a Europa, acompanhando um grande grupo de amigos que fará sua segunda trip automobilística ...

Leia a coluna!



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Fernando Conrado



Fotógrafo, advogado, cientista social, com ênfase em política e antropologia, pós-graduado na Espanha em relações internacionais.

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