Viajando de Kombi pelo Brasil

14 de maio de 2014, escrito por Eduardo Giez Estima

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Foto: www.antyqua.com.br

Viajei muito com meu pai. Ele ia sair em viagem, eu estava em férias, lá ia eu para o banco do carona. Mas isso não começou do nada. Acredito que o início estava no quanto meu pai gostava de uma estrada.

Até 1966, ele era um prodigioso assessor da diretoria de uma companhia de seguros. Mas, àquela época, essas empresas funcionavam no regime de carta patente, ou seja, se você tinha uma carta que lhe autorizasse a funcionar, como os bancos também naquele período, você poderia operar seguros. Acontece que a tal companhia ia bem até ter sua carta patente cassada pelo governo federal. Coisas de novo governo pós-revolução que não gostava muito dos donos da seguradora, ou algo assim. E meu pai foi um dos últimos a fechar as portas da companhia seguradora. E, quando viu, estava desempregado.

A boa casa, a Simca Jangada, o JK, tudo era despesa no momento em que nosso protagonista decidiu que não ia mais trabalhar em seguros, pois o jovem de 32 anos e quatro filhos, resolveu que ia desbravar novos negócios pelo país afora. E foi convidado a ir para Belo Horizonte (MG).

De lá, enviava cartões postais com as belas fotos da cidade planejada, de clima ameno constante, de futuro para a nossa família. E tanto fez que, um mês depois, viria nos buscar em Porto Alegre numa Kombi branca, ano 67, 0 km. Sem rádio, pois a tirou da concessionária Carbel e se tocou para nos pegar, viajando 24 horas até chegar em casa, cansado.

Passamos uns dias ainda em Porto Alegre, quando protagonizei um quase acidente com a tal Kombi. Ele instalara um kit desenvolvido em Minas Gerais, que trazia as marchas para a coluna de direção. Sim, lembro-me muito bem. Era paralelo à palanca da seta (pisca-pisca), do lado direito. A engenhoca subia, vinha por debaixo do grande porta trecos da kombi, até a coluna e ali se trocavam as marchas. Eu tinha 7 anos. E aquilo era uma novidade para mim.

Minha irmã Luiza, eu e minha mãe fomos buscar nossas roupas de cama numa lavadeira (sim, não era lavanderia, era uma senhora que terceirizava a roupa pesada e a devolvia limpa e passada, a famosa trouxa de roupa). Em 1967, o trânsito era tranquilo e minha mãe parou na contramão, do lado esquerdo da rua, em frente à casa dessa senhora. Desceu e nos deixou na Kombi. Naquele tempo, batiam-se palmas em frente à casa que não tinha campainha (um luxo). E minha mãe assim o fez. Lembro que nossa distância deveria ser de uns 5 metros. E, lá fui eu, assumir o comando da Kombi. Brincar de dirigir naquela nova engenhoca.

Bvrruuuuuumm,...brummmmmmm, ...vrummmm....

Já estava eu me imaginando em terceira marcha quando... a porqueira da Kombi começou a descer a rua lentamente em direção à Freire Alemão... na contramão... Eu vi que tinha feito besteira (colocado em ponto morto). Não sabia frear. Minha irmã ficou no banco de trás e eu, como o comandante do Costa Concórdia, fui o primeiro a pular. Que vergonha! Pulei e corri ao lado da Kombi, na calçada. Minha mãe se desesperou e tentou nos pegar. Tooooo late.

Até que apareceu, como um Super Salvador de Kombis, o filho da lavadeira, que pulou dentro da Fast & Furious e... a freou. Tic tac tic tac tic tac... Parecia uma eternidade. Eu não sabia onde me meter. Minha irmã chorava, sem entender nada do que havia acontecido, mas chorava, minha mãe falava sem parar e eu, como dizem na fronteira do Rio Grande do Sul, quieto que nem guri cagado.

Fora uma experiência ruim. Muito ruim. Mas, fazer o quê, está lá no meu currículo, então conto para vocês.

Mas nem só coisas ruins me vêm à mente quando lembro da Kombi. Afinal, íamos morar em Belo Horizonte, quase 2 mil km de nossa cidade natal.

E chegou o dia da viagem.

A Kombi e nós. Na frente, meu pai e minha mãe, que se revezariam na direção.
No banco do meio, a Nãna, empregada que trabalhou conosco por mais de 40 anos, o Nando, então com menos de 2 anos e o Tommy, nosso boxer.
No banco traseiro, a Luiza e a Laura, minhas irmãs, com o chão fechado de malas. E cobertores.
Na cachorreira, malas e... eu. Sim, por 2 mil km eu viajei na altura do vidro traseiro da Kombi, numa época em que cinto de segurança era usado em protótipos da Volvo. Na Suécia!

Subimos a BR-116 e seguimos pela Fernão Dias. Tudo com pista simples, e muitos trechos em obras. Viajamos direto, dia e noite, com meu pai mais dirigindo à noite e minha mãe uma parte do dia. Era inverno. Tinha muita neblina. E o Tommy raspava a porta quando queria descer para fazer suas necessidades. E foi divertido. Muito divertido.

A casa alugada em BH era bem na entrada da cidade: Av. Amazonas, 3274. Ali moramos dois anos e meio. Foram tempos difíceis. Fui estudar no Colégio Santo Agostinho, mas pedi pra sair: eu era vítima de bullying (isso não existia na época) por causa do meu sotaque. Fui para o Izabella Hendrix. Dali eu gostei. Tínhamos aula de natação na educação física. Os colegas eram legais. Minha mãe experimentou fazer a Kombi de van escolar, uma novidade à época. Ela se metia em cada uma, mas sempre forte, ao lado de meu pai.

Viajamos muito na Kombi Branca. Ouro Preto, São João Del Rey, a BR-3, na época em que o Tony Tornado criou a tal música.

Uma vez íamos a Juiz de Fora, a mais carioca das cidades mineiras, mas meu pai me convidou para ir no trem que lá existia - o Vera Cruz, numa cabine leito. Um luxo. Uma aventura que encerrou às quatro da manhã e, feitos zumbis, descemos e fomos para um hotel. Mas foi inesquecível.

Meu pai gostou muito da Kombi. E comprou uma luxo, vermelha e branca em 1968.

Mas essa não tinha graça, pois tinha o câmbio normal.

Enfim, a Kombi foi divertida, pelo menos para mim. Tive meu padrinho, na cidade de Rio Grande (RS), que com seus 6 filhos, sempre teve Kombi. E, agora, um outro tio meu, o Júlio, tem uma relíquia que usa só para ir à praia, uma alemã 1967, o primeiro modelo Clipper do mundo. Azul, com o interior vermelho.

A Kombi parou de ser fabricada no final de 2013 e deixou saudosos pelo mundo. Alemães compram o que podem de Kombis antigas no Brasil e as importam.

E, para comemorar o fim da Kombi, um amigo meu comprou uma 2013/2014, branca e me confiou-a: "Faça o que você quiser com ela". E estou fazendo. Deve ficar pronta no final de maio. Vou mostrá-la a vocês em breve.

Um abraço a todos. E ótima semana!



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Eduardo Giez Estima



Empresário apaixonado por motores como quase todos brasileiros.

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